Eu era uma criança um tanto incomum e assim eram minhas ambições profissionais. Nunca quis ser professora, bailarina, modelo ou outras coisas que as menininhas costumam responder a essa pergunta. Em vez disso eu queria ser:

- escritora
- cientista
- trabalhar nos estúdios do Maurício de Souza
- estudar no MIT

Não sei se eu faço análise pra descobrir que tipo bizarro de infância eu tive ou se fico deprimida porque não realizei nenhuma das opções.

Uma vez quando eu tinha uns 12 anos alguém me falou que eu lembrava muito minha mãe. Fiquei horrorizada com isso e ela ainda mais horrorizada por eu ter ficado horrorizada. Desse dia em diante eu comecei a ficar atenta a cada vez que algum gesto ou entonação de voz meus imitavam os da minha mãe e mais tarde, perceber também atitudes e modos de pensar semelhantes. Vejam bem, não é que e não goste da minha mãe, tenho um amor enorme e uma adminiração maior ainda pela maneira como ela me criou. Ao mesmo tempo, ela também nunca foi o exemplo de mulher que eu queria ser quando crescesse e tenho inúmeras críticas à maneira como ela conduz várias coisas na vida dela. Isso não seria de modo algum motivo de preocupação se eu nunca tivesse notado a semelhança entre nós. Como ela é evidente, acabo me irritando demais com ela por puro medo de ficar igual. A maior parte de nosas discussões eram por conta dessas minhas críticas e das minhas tentativas de mudar hábitos dela que me incomodavam, que só há pouco tempo comecei a enxergar como uma esperança que se ela melhorasse eu também poderia ser melhor no futuro. Caiu a ficha que só porque eu sou parecida com ela não preciso me tornar igual a ela quando tiver a mesma idade e que em vez de ficar tentando mudá-la eu tenho que trabalhar para me mudar e é nisso que eu deveria me focar, mas está difícil… Difícil parar de me irritar, difícil não me apavorar cada vez que eu descubro o quanto ela era parecida comigo quando tinha minha idade e difícil não me perguntar em que ponto aquela pessoa que parecia tanto comigo virou a pessoa que eu não quero ser e nem ficar morrendo de medo de tomar o mesmo rumo. Nesses dias em que voltei a conviver com ela todos os dias por conta da minha recuperação esse meu conflito interno está me tirando o sono. Vamos ver se pelo menos esses dias podem servir para evoluir um pouco nesse campo, seja na minha relação com ela quanto comigo mesma.

Vocês já tiveram a sensação de missão cumprida em relação a uma pessoa? Uma pessoa muito próxima e muito querida que poderia perfeitamente continuar ali por anos e anos mas de alguma maneira parece que o importante já foi feito e não há nada mais a acrescentar? Não é uma sensação vazia e nostálgica, mas de preenchimento e objetivo cumprido. Eu acho isso gostoso porém estranho…

Os rios

Os rios que eu encontro
vão seguindo comigo.
Rios são de água pouca,
em que a água sempre está por um fio.
Cortados no verão
que faz secar todos os rios.
Rios todos com nome
e que abraço como a amigos.
Uns com nome de gente,
outros com nome de bicho,
uns com nome de santo,
muitos só com apelido.
Mas todos como a gente
que por aqui tenho visto:
a gente cuja vida
se interrompe quando os rios.

João Cabral de Melo Neto

Se blogs usassem colares, esse seria o desse blog…

po_sautoir_aliceinwonderlan

Da Bird on the wire

Navegando aleatoriamente em blogs desconhecidos encontrei duas postagens no estilo “o que eu vou ser quando crescer”. As duas meninas tinham 20 e 24 anos e ambas se imaginavam aos 30 e também relembravam o que elas imaginavam para os seus 20 quando eram mais novas. As duas se imaginavam aos 30 ao lado de um grande amor e com um rumo definido na vida.

Depois dos 20 eu não imaginei muita coisa para mim, acho que fui só tendo planos imediatos e deixando acontecer. Mas quando eu era mais nova tinha esses pensamentos o-que-vou-ser-quando-crescer sim.

Felizmente, acho que realizei tudo o que tinha imaginado para os meus pré-20 e 20-e-poucos. Não sei se fui muito sortuda ou se tinha bem pouca imaginação quando era novinha. Para a vida adulta eu nunca cheguei a definir muito bem o que eu queria. Às vezes era uma casa com marido e cachorro, outras era casa com filhos e cachorro ou ainda casa, marido, filhos e cachorro. Na verdade acho que a segunda combinação era mais frequente. Mas é engraçado como os únicos elementos frequentes eram a casa e o cachorro. A casa era a independência, o ser dona do meu próprio nariz. Acho que por isso a figura do marido sempre ficou meio de lado. Por muito tempo achei que casamento, namoro, relacionamentos em geral eram grandes cerceadores da liberdade e fugi disso por muito tempo. Quando finalmente consegui entender que não precisava ser assim, passei o papel de vilão da liberdade para os filhos. Ainda acho que eles restringem muita coisa na vida, mas ao mesmo tempo abrem todo um leque de sentimentos e vivências que devem valer a troca. Enfim, sem voltar a pensar no que ia ser por muito tempo, parece que estou caminhando para a visão futura casa-marido-filhos-cachorro. Quão no futuro isso está, não faço a mínima idéia. Acho que eu não sei calcular a distância do onde estou agora para o quando-vou-ser-grande muito melhor do que quando era criança. Por enquanto tenho casa alugada, namorado, não-preconceito em relação a filhos e uma grande vontade de um dia ter um cachorro. O rumo definido na vida? Alguém de 30 anos tem isso de verdade?

Nossa, se eu já não andava muito frequente por aqui, depois do twitter sumi de vez…

- viajar para a França
- trocar de carro
- trocar de celular
- voltar para a academia
- assinar internet em Santos

Acho que eu preciso de um plano para arrumar um jeito de pagar por tudo isso…

Graças a um respingo de tinta branca já sei como vou ficar daqui a alguns anos…

A Camila me convidou (ou desafiou) a tirar uma fotografia literal. Respirei fundo. Acho que estava mesmo na hora de fazer um registro. Os balanços mentais sempre existem, mas conversas e textos nos obrigam não só a pensar, mas a concluir o raciocínio. E nada melhor que uma amiga pra nos fazer refletir de vez em quando, não?

Então vamos começar registrando aquilo já devia ter merecido um post há muito tempo: Finalmente virei mulher! Sempre fui uma maria moleque radical desde pequena. Nunca tive Barbies ou equivalentes genéricas. Gostava de brincar de pega-pega e jogar bafo com os meninos na escola (Tá bom, era pra ganhar figurinhas brilhantes pra colar no caderno, mas jogava). Veio a adolescência e eu continuei fazendo o sinal da cruz para aulas de balé, jazz e coisas do gênero. Tinha tamanha falta de familiaridade com um batom que quando precisava passar um as mulheres mais velhas ao redor até se ofereciam para ajudar quando viam a minha total descordenação.

Quando eu já achava que era um caso totalmente perdido, eis que começou um flerte com o mundo cor-de-rosa. Não tenho muita certeza, mas acho que tudo começou com minhas sobrinhas, que são absolutamente graciosas e femininas desde que deram seus primeiros passinhos dentro de seus sapatinhos com lacinhos. Passei um longo período “virando mocinha” e hoje sou mulherzinha assumida. Adoro babados, flores, unhas coloridas e uso vestidos porque são bonitos e não porque são a coisa mais rápida e prática de se vestir (apesar de continuar achando isso). Leio romances açucarados, assisto muita comédia romântica, séries de menininha e ainda choro no final.

Claro que tudo isso teve suas conseqüências e acho que a maior delas foi o fim de um relacionamento de anos. “Virar mulher” não significa somente passar a achar fofinhas coisas com enfeitinhos, envolve uma mudança de posturas, de comportamento e até de papéis. Envolve se comportar de maneira diferente e exigir ser tratada de outra maneira. Envolve olhar com olhos simpáticos algo que até então eu não desejava para a minha vida: a maternidade.

Essa eu feminina não era a mesma que tinha começado esse relacionamento anos atrás e esse relacionamento também não combinava mais com o que eu queria. Demorou mais para aceitar do que para perceber isso, mas uma vez aceita a realidade parece que tudo se encaixou muito melhor do que eu esperava. Hoje tenho outro relacionamento, que surgiu muito antes do que eu esperava e que aos poucos foi ticando todos os itens da lista do que a “nova eu” esperava de um “novo ele”. Cheers!

Além dele, tenho outras duas pessoas com quem falo diariamente, duas das minhas melhores amigas, com quem estou tendo essa fase maravilhosa de conseguir estarmos tão próximas uma da outra, num nível até um pouco exagerado, mas delicioso. Pensando bem, olhando para esta fotografia, talvez meu universo ande um tanto restrito. Não é que eu só tenha passado tempo com essas três pessoas, mas talvez essa convivência tão intensa tenha criado uma zona de conforto tão grande que eu tenha deixado pouco espaço ou ficado com preguiça de alcançar aqueles que não estão tão à mão. Hmm. Fotografia cumprindo seu papel de fazer refletir.

Vale constar também nesse registro do momento que faltam pouco menos de dois meses para o famigerado aniversário de 30 anos e apesar de algumas questões típicas da crise que costuma rondar este aniversário, por enquanto o saldo é mais positivo do que negativo. Veremos. A grande comemoração está marcada somente para o ano que vem: Uma viagem com minha amiga (sim, uma das duas de conversa diária) para comemorar os 15 anos da viagem de 15 anos que fizemos juntas. Enquanto a viagem não vem, dois dias antes do meu aniversário tem o show da Madonna, que desde que fiquei sabendo da data já tenho considerado como minha comemoração deste ano. Nada melhor para comemorar o fim de um ano tão feminino.

Para completar a fotografia, tem o lado profissional, que eu sempre enxerguei como um modo de ganhar dinheiro para fazer o resto das coisas que eu gosto, gastando o mínimo de tempo possível com isso. É o lado que eu menos gosto da minha vida, mas pelo menos posso dizer que tenho tido êxito nessa tarefa. Poderia ter um cargo melhor, um salário melhor? Poderia. Conseguiria isso cumprindo minha premissa inicial? Não sei. Até agora não achei um jeito. Às vezes me pergunto se já que a idéia é só ganhar dinheiro se não vale a pena partir para algo totalmente diferente com horários também diferentes para sair dessa rotina de escritório todo dia, mas até hoje não cheguei a uma conclusão se tem outra coisa que eu gostaria de fazer e também qual seria essa coisa. Por enquanto o importante é que eu gosto da maior parte das coisas que faço no trabalho e que isso tem me proporcionado minha casa, – já falei o quanto adoro morar sozinha? – meus prazeres de consumo e minha viagem de aniversário.

No fim das contas, a fotografia que tenho hoje – que já virou um pôster de tanto que eu escrevi – é de alguém sorridente, que não tem uma vida perfeita mas que está bastante satisfeita com o que tem e com boas expectativas para o futuro. Boa foto. Dedico à Camila. Muito obrigada por ter me proposto esse exercício, me fez muito bem. Digno de ser incluído na minha lista de to do´s, para ser repetido esporadicamente.

OBS.: Alguém sorridente e de biquíni, porque eu estou me sentindo pelada relendo tudo o que escrevi aqui, mas não me arrependo de ter publicado…

Com essa confusão toda do site não carregar, não enviar e-mail de confirmação e tudo o mais, acabei com um ingresso a mais para o show da Madonna. Se alguém se interessar, é pro dia 20/12 – pista.
Sold out!

Vale a pena perder um tempinho procurando as séries aqui

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